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6/13/2006
Clorose: a efêmera doença das virgens
Talvez mais do que outras especialidades, a psiquiatria está
sempre às voltas com questões nosológicas. O sistema classificatório de Kleist
(com alguns redescobrimentos e revalorizações), a fusão de entidades
primariamente tidas como isoladas (a hebefrenia de Hacker e a catatonia de
Kahlbaum na esquizofrenia) ou o desmembramento de entidades que pareciam
constituir uma só (a bulimia nervosa inicialmente vista como um aspecto da
evolução da anorexia nervosa), são apenas alguns dos profusos exemplos históricos.
Uma outra questão atual é a oposição entre diagnóstico
categorial e dimensional, que tem oferecido debates constantes, mas que também
está além do escopo deste trabalho.
Uma olhada sobre a história das doenças humanas encontra o
que se convencionou chamar de doenças efêmeras, entidades clínicas descritas em
determinadas épocas, discutidas por hábeis observadores, e que hoje, por uma
razão ou outra, desapareceram e deixaram dúvidas sobre o que de fato
constituiam. No dizer de William Osler, “existem na cabeça dos médicos, mas não
no corpo dos pacientes”.
Uma visão panorâmica encontra, ao longo da história da
Medicina, alguns exemplos, como a chamada praga de Atenas (seja lá o que tenha
sido, dizimou o exército e terminou com a hegemonia ateniense); a febre
tifomalárica (descrita durante a Guerra Civil Americana); a doença do suor
(Inglaterra, nos séculos XV e XVI); tarantismo (sudeste da Itália, século XVII,
“causada” por picada de tarântula e curável pelo ato de dançar – daí a origem
da tarantela).
Uma dessas “doenças” de interesse psiquiátrico foi a
“clorose”, descrita por médicos ingleses e americanos no século XIX como um
grave e comum problema entre as meninas adolescentes e que desapareceu por
completo dos registros médicos por volta da terceira década do século XX.
O diagnóstico de clorose ou “doença verde” fazia-se na
presença de palidez, fraqueza, cansaço, irritabilidade, constipação e
irregularidade menstrual ou amenorréia.
O apetite reduzia-se, causando por vezes um pronunciado
emagrecimento, e tornava-se caprichoso, levando a aversão por alguns alimentos,
como a carne, ou ao desejo exagerado por bolachas ou geléias.
A primeira menção sobre clorose aparece em Hipócrates, mas
definitivamente incorpora-se ao voca-bulário médico em 1554 com a descrição do
que Johannes Lange chamou de morbus virgineus (doença das virgens). Lange
descreve o caso de Ana, cujo pai não consegue casá-la em função da doença, que
lhe conferia uma aparência pálida e emagrecida, e com todo o corolário de
sintomas descritos anteriormente. Lange acreditava que a doença era causada por
uma “febre amorosa” e se curaria com o casamento, intercurso sexual e a
maternidade (nessa ordem).
Além de morbus virgineus outros sinônimos como pallor
virginium, foedi virginium colores, febris virginia e cachexia virgineum
surgiram nos séculos XVII e XVIII como sinônimos daquilo que no século XIX, sob
o rótulo de clorose, transformou-se em uma epidemia entre meninas na
Inglaterra, na França e nos Estados Unidos.
De fato, alguns médicos vitorianos acreditavam que um toque
de clorose estaria presente em todas as meninas adolescentes (mas não nos
meninos) e que se tratava de uma doença urbana, sendo raríssima entre as jovens
camponesas.
As “cloróticas” eram descritas como meninas lânguidas e em
permanente estado de abandono, desvanecendo-se por qualquer coisa e chorando
por motivos insignificantes.
Psicopatologia ou a mera expressão de um modismo, um gênero
de beleza derivado do Romantismo, do romance gótico do século XVIII, do mal du
siècle, dos poemas de Lord Byron?
Os médicos lamentavam as conseqüências do byronismo sobre os
hábitos alimentares das meninas, que perseguiam essa “languidez elegante”, essa
magreza e palidez que traduziam fragilidade, desencanto e melancolia, mas
adquiridas principalmente pela ingestão de doses de vinagre. Definhar, sem
dúvida, estava na moda.
Além disso, entre as obras edificantes que faziam parte da
educação dessas meninas, estava incluída a biografia de Santa Catarina de
Siena, uma famosa Santa anoréxica, admirada pelo seu autocontrole e elevação
espiritual, ainda que vista pelo Protestantismo vitoriano como perigoso exemplo
de mortificações.
De qualquer forma, o controle do apetite fazia parte da
educação moral de qualquer mulher, uma vez que alimento e libido pareciam estar
interligados.
Essa visão, herança da tradição ascética expressa já nos
primeiros séculos do Cristianismo, se fortalece com a moral calvinista, que
alertava para a relação existente entre comida e sexualidade e admoestava
violentamente contra as tentações sensuais do paladar. Comidas picantes e
indigestas deviam ser evitadas, pois poderiam estimular a sexualidade.
Os aconselhamentos médicos e as regras à mesa exemplificam
essa preocupação. Segundo Brumberg (1989), dizia-se, por exemplo, que meninas que
se masturbavam manifestavam um apetite incomum, desejando por vezes mostarda,
pimenta, alimentos picantes, sal, especiarias, giz, argila, carvão etc. Mães
cautelosas ofereciam às suas filhas, preferencialmente, doces e sucos, e
proibiam “comidas inflamatórias” (flaming foods), como condimentos, chás, café,
chocolate, pão quente, pastelarias, nozes, uva-passa e álcool. No entanto, de
todos os alimentos perigosos, nenhum o era mais do que a carne, vista por
médicos e leigos como altamente estimulante da sexualidade, podendo levar a
jovem adolescente, caso a ingerisse em abundância, à insanidade e à ninfomania.
Essa prática de quase nunca comer carne certamente contribuiu para o
aparecimento da clorose ou de uma anemia por deficiência de ferro.
Esses verdadeiros tabus alimentares levavam as mulheres a se
sentirem desconfortáveis com relação à comida e a mal tocarem no prato, quando
sentadas à mesa de refeições. Uma mulher delicada não deveria manifestar grande
apetite e, se possível, jamais ser vista comendo.
Esta contenção ia além do apetite. Atos, gestos e
sentimentos deviam ser controlados. Vivia-se o auge do império inglês, e a
rigidez da moral vitoriana refletia o que o Estado esperava de cada sujeito:
obediência incontestável e respeito à hierarquia. A família, expressão máxima
do decoro e da devoção às regras, escondia, na sua privacidade, um verdadeiro
barril de pólvora, em que nenhuma autonomia pessoal era permitida.
A sala de jantar era o centro do culto à família e o ritual
de reunir-se à mesa, sagrado. A comida era um forte elemento para a condução
moral das crianças: as terríveis histórias infantis falavam de crianças que
haviam morrido de fome por terem recusado a sopa, a aversão a certos alimentos
era corrigida com uma porção adicional e crianças desobedientes iam para a cama
sem jantar.
O emagrecimento exagerado das adolescentes poderia ser
entendido por nós, então, como um comportamento provocativo, e essas meninas
obstinadas estariam na contra-mão do ideal burguês: mulheres opulentas, com uma
vocação natural para a maternidade, filhos rechonchudos e maridos barrigudos.
À época, porém, além da abstinência sexual, as roupas
apertadas, contraindo os orgãos internos, a instabilidade uterina na puberdade
e a anemia eram tidas como causas.
De fato, a teoria mais forte passou a entender a clorose
como uma forma de anemia ferropriva, e a alimentação vigorosa, os sais de
ferro, os tônicos, então usados para o estímulo do apetite e o repouso em casa,
deram conta de boa parte das meninas com clorose.
Mas a presença da doença em meninas jovens, a questão da
sexualidade, o quadro clínico, incluindo o emagrecimento, a amenorréia e as
alterações de apetite (inclusive com a ingestão de vinagre para manter-se
magra) têm levado alguns autores a entender a clorose, pelo menos em parte
dessas meninas, como um sinônimo de um transtorno alimentar.
Entre esses autores situa-se Loudon (1984), que claramente
relaciona a clorose à anorexia nervosa. Segundo sua classificação, haveria um
grupo de meninas “cloroanêmicas”, provenientes de uma classe social
desfavorecida, que apresentaria extrema palidez e não teriam amenorréia, e um
grupo de meninas “cloroanoréxicas” que reuniria jovens de um meio social mais
favorecido e que apresentaria amenorréia, perda de peso significativa,
episódios bulímicos e uma síndrome depressiva.
Parry-Jones (1985), pesquisando arquivos hospitalares em
busca de formas similares de anorexia nervosa no século XIX e começo do século
XX, concorda com Loudon em que clorose e anorexia nervosa seriam condições
análogas de uma mesma psicopatologia. O autor aponta para o fato de a
amenorréia e a busca deliberada pelo emagrecimento estarem presentes em ambas
as condições, e conclui que a anorexia nervosa dos nossos dias provavelmente
tem tido variações no decorrer dos dois últimos séculos.
Cloróticas do passado, anoréxicas do presente, quem sabe
praticantes de exercício físico compulsivo do futuro carregam em si o novo e o
antigo, o variável e o estável em um constante desafio para os
psicopa-tologistas.
Referências bibliográficas
BRUMBERG, J.J. – Fasting Girls: The History of Anorexia
Nervosa. Penguin Books, New York, 1989. DINICOLA,V.F. – Anorexia Multiforme:
Self-starvation in Historical and Cultural Context, In: Transcultural
Psychiatric Review, 27, 1990. GUILLEMOT, A.; LAXENAIRE, M. – Anorexia Nerviosa
y Bulimia: El Peso de la Cultura. Masson S.A., Barcelona, 1994 KIPLE, K.F. –
Plague, Pox and Pestilence. Barnerse Noble, London, 1997. LOUDON, I.S.L. –
Chlorosis, Anaemia and Anorexia Nervosa. British Medical Journal 281: 1669-75,
1980. SIDDALL, A.; CLAIR. Chlorosis – Etiology Reconsidered. Bulletin of
History of Medicine 56: 254-60, 1982. VANDEREYCKEN, W.; DETH, R. – From Fasting
Saints to Anorexic Girls: the History of Self-starvation. University Press, New
york, 1994.
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