quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

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6/13/2006

Clorose: a efêmera doença das virgens

Talvez mais do que outras especialidades, a psiquiatria está sempre às voltas com questões nosológicas. O sistema classificatório de Kleist (com alguns redescobrimentos e revalorizações), a fusão de entidades primariamente tidas como isoladas (a hebefrenia de Hacker e a catatonia de Kahlbaum na esquizofrenia) ou o desmembramento de entidades que pareciam constituir uma só (a bulimia nervosa inicialmente vista como um aspecto da evolução da anorexia nervosa), são apenas alguns dos profusos exemplos históricos.

Uma outra questão atual é a oposição entre diagnóstico categorial e dimensional, que tem oferecido debates constantes, mas que também está além do escopo deste trabalho.

Uma olhada sobre a história das doenças humanas encontra o que se convencionou chamar de doenças efêmeras, entidades clínicas descritas em determinadas épocas, discutidas por hábeis observadores, e que hoje, por uma razão ou outra, desapareceram e deixaram dúvidas sobre o que de fato constituiam. No dizer de William Osler, “existem na cabeça dos médicos, mas não no corpo dos pacientes”.

Uma visão panorâmica encontra, ao longo da história da Medicina, alguns exemplos, como a chamada praga de Atenas (seja lá o que tenha sido, dizimou o exército e terminou com a hegemonia ateniense); a febre tifomalárica (descrita durante a Guerra Civil Americana); a doença do suor (Inglaterra, nos séculos XV e XVI); tarantismo (sudeste da Itália, século XVII, “causada” por picada de tarântula e curável pelo ato de dançar – daí a origem da tarantela).

Uma dessas “doenças” de interesse psiquiátrico foi a “clorose”, descrita por médicos ingleses e americanos no século XIX como um grave e comum problema entre as meninas adolescentes e que desapareceu por completo dos registros médicos por volta da terceira década do século XX.
O diagnóstico de clorose ou “doença verde” fazia-se na presença de palidez, fraqueza, cansaço, irritabilidade, constipação e irregularidade menstrual ou amenorréia.

O apetite reduzia-se, causando por vezes um pronunciado emagrecimento, e tornava-se caprichoso, levando a aversão por alguns alimentos, como a carne, ou ao desejo exagerado por bolachas ou geléias.

A primeira menção sobre clorose aparece em Hipócrates, mas definitivamente incorpora-se ao voca-bulário médico em 1554 com a descrição do que Johannes Lange chamou de morbus virgineus (doença das virgens). Lange descreve o caso de Ana, cujo pai não consegue casá-la em função da doença, que lhe conferia uma aparência pálida e emagrecida, e com todo o corolário de sintomas descritos anteriormente. Lange acreditava que a doença era causada por uma “febre amorosa” e se curaria com o casamento, intercurso sexual e a maternidade (nessa ordem).

Além de morbus virgineus outros sinônimos como pallor virginium, foedi virginium colores, febris virginia e cachexia virgineum surgiram nos séculos XVII e XVIII como sinônimos daquilo que no século XIX, sob o rótulo de clorose, transformou-se em uma epidemia entre meninas na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos.

De fato, alguns médicos vitorianos acreditavam que um toque de clorose estaria presente em todas as meninas adolescentes (mas não nos meninos) e que se tratava de uma doença urbana, sendo raríssima entre as jovens camponesas.

As “cloróticas” eram descritas como meninas lânguidas e em permanente estado de abandono, desvanecendo-se por qualquer coisa e chorando por motivos insignificantes.

Psicopatologia ou a mera expressão de um modismo, um gênero de beleza derivado do Romantismo, do romance gótico do século XVIII, do mal du siècle, dos poemas de Lord Byron?

Os médicos lamentavam as conseqüências do byronismo sobre os hábitos alimentares das meninas, que perseguiam essa “languidez elegante”, essa magreza e palidez que traduziam fragilidade, desencanto e melancolia, mas adquiridas principalmente pela ingestão de doses de vinagre. Definhar, sem dúvida, estava na moda.

Além disso, entre as obras edificantes que faziam parte da educação dessas meninas, estava incluída a biografia de Santa Catarina de Siena, uma famosa Santa anoréxica, admirada pelo seu autocontrole e elevação espiritual, ainda que vista pelo Protestantismo vitoriano como perigoso exemplo de mortificações.

De qualquer forma, o controle do apetite fazia parte da educação moral de qualquer mulher, uma vez que alimento e libido pareciam estar interligados.

Essa visão, herança da tradição ascética expressa já nos primeiros séculos do Cristianismo, se fortalece com a moral calvinista, que alertava para a relação existente entre comida e sexualidade e admoestava violentamente contra as tentações sensuais do paladar. Comidas picantes e indigestas deviam ser evitadas, pois poderiam estimular a sexualidade.

Os aconselhamentos médicos e as regras à mesa exemplificam essa preocupação. Segundo Brumberg (1989), dizia-se, por exemplo, que meninas que se masturbavam manifestavam um apetite incomum, desejando por vezes mostarda, pimenta, alimentos picantes, sal, especiarias, giz, argila, carvão etc. Mães cautelosas ofereciam às suas filhas, preferencialmente, doces e sucos, e proibiam “comidas inflamatórias” (flaming foods), como condimentos, chás, café, chocolate, pão quente, pastelarias, nozes, uva-passa e álcool. No entanto, de todos os alimentos perigosos, nenhum o era mais do que a carne, vista por médicos e leigos como altamente estimulante da sexualidade, podendo levar a jovem adolescente, caso a ingerisse em abundância, à insanidade e à ninfomania. Essa prática de quase nunca comer carne certamente contribuiu para o aparecimento da clorose ou de uma anemia por deficiência de ferro.

Esses verdadeiros tabus alimentares levavam as mulheres a se sentirem desconfortáveis com relação à comida e a mal tocarem no prato, quando sentadas à mesa de refeições. Uma mulher delicada não deveria manifestar grande apetite e, se possível, jamais ser vista comendo.

Esta contenção ia além do apetite. Atos, gestos e sentimentos deviam ser controlados. Vivia-se o auge do império inglês, e a rigidez da moral vitoriana refletia o que o Estado esperava de cada sujeito: obediência incontestável e respeito à hierarquia. A família, expressão máxima do decoro e da devoção às regras, escondia, na sua privacidade, um verdadeiro barril de pólvora, em que nenhuma autonomia pessoal era permitida.

A sala de jantar era o centro do culto à família e o ritual de reunir-se à mesa, sagrado. A comida era um forte elemento para a condução moral das crianças: as terríveis histórias infantis falavam de crianças que haviam morrido de fome por terem recusado a sopa, a aversão a certos alimentos era corrigida com uma porção adicional e crianças desobedientes iam para a cama sem jantar.

O emagrecimento exagerado das adolescentes poderia ser entendido por nós, então, como um comportamento provocativo, e essas meninas obstinadas estariam na contra-mão do ideal burguês: mulheres opulentas, com uma vocação natural para a maternidade, filhos rechonchudos e maridos barrigudos.

À época, porém, além da abstinência sexual, as roupas apertadas, contraindo os orgãos internos, a instabilidade uterina na puberdade e a anemia eram tidas como causas.

De fato, a teoria mais forte passou a entender a clorose como uma forma de anemia ferropriva, e a alimentação vigorosa, os sais de ferro, os tônicos, então usados para o estímulo do apetite e o repouso em casa, deram conta de boa parte das meninas com clorose.

Mas a presença da doença em meninas jovens, a questão da sexualidade, o quadro clínico, incluindo o emagrecimento, a amenorréia e as alterações de apetite (inclusive com a ingestão de vinagre para manter-se magra) têm levado alguns autores a entender a clorose, pelo menos em parte dessas meninas, como um sinônimo de um transtorno alimentar.

Entre esses autores situa-se Loudon (1984), que claramente relaciona a clorose à anorexia nervosa. Segundo sua classificação, haveria um grupo de meninas “cloroanêmicas”, provenientes de uma classe social desfavorecida, que apresentaria extrema palidez e não teriam amenorréia, e um grupo de meninas “cloroanoréxicas” que reuniria jovens de um meio social mais favorecido e que apresentaria amenorréia, perda de peso significativa, episódios bulímicos e uma síndrome depressiva.

Parry-Jones (1985), pesquisando arquivos hospitalares em busca de formas similares de anorexia nervosa no século XIX e começo do século XX, concorda com Loudon em que clorose e anorexia nervosa seriam condições análogas de uma mesma psicopatologia. O autor aponta para o fato de a amenorréia e a busca deliberada pelo emagrecimento estarem presentes em ambas as condições, e conclui que a anorexia nervosa dos nossos dias provavelmente tem tido variações no decorrer dos dois últimos séculos.

Cloróticas do passado, anoréxicas do presente, quem sabe praticantes de exercício físico compulsivo do futuro carregam em si o novo e o antigo, o variável e o estável em um constante desafio para os psicopa-tologistas.

Referências bibliográficas

BRUMBERG, J.J. – Fasting Girls: The History of Anorexia Nervosa. Penguin Books, New York, 1989. DINICOLA,V.F. – Anorexia Multiforme: Self-starvation in Historical and Cultural Context, In: Transcultural Psychiatric Review, 27, 1990. GUILLEMOT, A.; LAXENAIRE, M. – Anorexia Nerviosa y Bulimia: El Peso de la Cultura. Masson S.A., Barcelona, 1994 KIPLE, K.F. – Plague, Pox and Pestilence. Barnerse Noble, London, 1997. LOUDON, I.S.L. – Chlorosis, Anaemia and Anorexia Nervosa. British Medical Journal 281: 1669-75, 1980. SIDDALL, A.; CLAIR. Chlorosis – Etiology Reconsidered. Bulletin of History of Medicine 56: 254-60, 1982. VANDEREYCKEN, W.; DETH, R. – From Fasting Saints to Anorexic Girls: the History of Self-starvation. University Press, New york, 1994.

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