segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Revista Estudos Feministas (clorose e anorexia)

Trecho do artigo “Os wannabees e suas tribos: adolescência e distinção na Internet“, que menciona a clorose no século XVIII.

Texto:
De Lord Byron a Gisele Bündchen – quando góticos e "pró-anas" se encontram

Uma das causas sociais atribuídas à anorexia é o padrão de beleza estabelecido pela indústria da moda. Afirma-se que as medidas corporais das modelos servem de meta para as adolescentes conquistarem o "corpo ideal". Considerando o IMC das modelos mais famosas, e que servem de thinspiration45 para as "pró-anas", conclui-se que, de fato, o resultado está muito próximo daquele atribuído, pela medicina, ao da anorexia. Um exemplo é Gisele Bündchen: seu IMC é 16, considerado na faixa da "subnutrição".46

No entanto, recorrendo a estudos sobre os hábitos alimentares das jovens dos séculos passados, o que se encontra são fatores sociais outros, ligados às restrições alimentares como forma de construção de uma feminilidade.

O diagnóstico da clorose entre adolescentes do século XIX é um exemplo. Essa "doença efêmera", que, segundo Táki Cordás e Cybelle Weinberg,47 desapareceu da história médica desde a terceira década do século passado, era identificada, exclusivamente, como uma patologia feminina e efêmera, que só tinha lugar na adolescência. Alguns estudos contemporâneos da literatura psicanalítica relacionam a clorose à anorexia.

De fato, alguns médicos vitorianos acreditavam que um toque de clorose estaria presente em todas as meninas adolescentes (mas não nos meninos) e que se tratava de uma doença urbana, sendo raríssima entre as jovens camponesas.48

Segundo os autores, os sintomas da clorose ou "doença verde" eram "palidez, fraqueza, cansaço, irritabilidade, constipação e irregularidade menstrual ou amenorréia" e, por atingir exclusivamente adolescentes do sexo feminino, contribuiu para vincular a imagem da fragilidade e da magreza à feminilidade.

As "cloróticas" eram descritas como meninas lânguidas e em permanente estado de abandono, desvanecendo-se por qualquer coisa e chorando por motivos insignificantes.

Psicopatologia ou a mera expressão de um modismo, um gênero de beleza derivado do Romantismo, do romance gótico do século XVIII, do mal du siècle, dos poemas de Lord Byron?

Os médicos lamentavam as conseqüências do byronismo sobre os hábitos alimentares das meninas, que perseguiam essa 'languidez elegante', essa magreza e palidez que traduziam fragilidade, desencanto e melancolia, mas adquiridas principalmente pela ingestão de doses de vinagre. Definhar, sem dúvida, estava na moda.

Mais tarde, ainda segundo os autores, a medicina descobriu que tal estado de saúde era o resultado de a uma deficiência nutritiva, decorrente de tabus alimentares: não era aconselhável, naquela época, oferecer carne ou alimentos condimentados para as jovens, pois se acreditava que eles estimulavam a libido.

Esses verdadeiros tabus alimentares levavam as mulheres a se sentirem desconfortáveis com relação à comida e a mal tocarem no prato, quando sentadas à mesa de refeições. Uma mulher delicada não deveria manifestar grande apetite e, se possível, jamais ser vista comendo.

Para fins de análise, tomarei de empréstimo esta expressão médica para introduzir o conceito de "clorose distintiva", aqui definida como um conjunto de práticas e valores que resultam em uma dada identidade que distingue algumas culturas e subculturas jovens ou tribos. Essencialmente adolescente e exclusivamente feminina, ela é expressa, entre outros aspectos, no padrão de beleza feminino frágil e magro, tão valorizado em nossa sociedade, não somente nas passarelas da moda.

Lord Byron, poeta inglês do século XIX, é uma espécie de inspiração para a "clorose distintiva" dos góticos, descendentes do movimento punk dos anos 70 e sucessores dos darks dos anos 80. Na subcultura gótica (ou goth),51 a depressão, a melancolia, a morbidade e a personalidade suicida, embora relativizadas pelos "mediadores" das comunidades virtuais, são algumas das características que constroem o comportamento de seus seguidores, tanto entre homens como mulheres. Tipicamente, sua aparência física é identificada com o uso de vestuário e acessórios pretos que, associados a cabelos escuros, à pele muito branca, a rostos maquiados em preto e branco, além de corpos magros e frágeis, tornam as diferenças entre os gêneros muito sutis. Em páginas da Internet dedicadas à cultura gótica, encontram-se descrições dos goths como pessoas mais "sensíveis", já que gostam de poesia e literatura erudita, entre outras preferências...”


Revista Estudos Feministas
Print version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584
Rev. Estud. Fem. vol.15 no.2 Florianópolis May/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2007000200005
ARTIGOS
Os wannabees e suas tribos: adolescência e distinção na Internet
The wannabees and their tribes: adolescence and distinction in Internet
Cláudia da Silva Pereira
Universidade Federal do Rio de Janeiro

RESUMO
Observando uma rede virtual de relacionamento, o Orkut, é possível identificar um sistema de classificação determinado pela forma com que os usuários interagem dentro das comunidades. O wannabe é um dos tipos que fazem parte desse universo. Os principais objetivos deste artigo são analisar de que forma a adolescência constrói sua identidade a partir de processos de distinção e controle social na Internet, tomando os aspectos relacionados ao gênero e ao corpo como centrais para a discussão, e refletir sobre os significados atribuídos, nessa fase da vida, a conceitos como "estilo de vida" e "estado de espírito" dentro de dois tipos de comunidades virtuais: a dos "góticos", tribo urbana detentora de uma dada feminilidade, e a das "pró-anas", estritamente virtual, que defende as práticas da anorexia como um estilo de vida.

Palavras-chave: adolescência; gênero; corpo; cibercultura.



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