Trecho do
artigo “Os wannabees e suas tribos: adolescência e distinção na Internet“, que
menciona a clorose no século XVIII.
Texto:
“De Lord
Byron a Gisele Bündchen – quando góticos e "pró-anas" se encontram
Uma das
causas sociais atribuídas à anorexia é o padrão de beleza estabelecido pela
indústria da moda. Afirma-se que as medidas corporais das modelos servem de
meta para as adolescentes conquistarem o "corpo ideal". Considerando
o IMC das modelos mais famosas, e que servem de thinspiration45 para as
"pró-anas", conclui-se que, de fato, o resultado está muito próximo
daquele atribuído, pela medicina, ao da anorexia. Um exemplo é Gisele Bündchen:
seu IMC é 16, considerado na faixa da "subnutrição".46
No entanto,
recorrendo a estudos sobre os hábitos alimentares das jovens dos séculos
passados, o que se encontra são fatores sociais outros, ligados às restrições
alimentares como forma de construção de uma feminilidade.
O
diagnóstico da clorose entre adolescentes do século XIX é um exemplo. Essa
"doença efêmera", que, segundo Táki Cordás e Cybelle Weinberg,47
desapareceu da história médica desde a terceira década do século passado, era
identificada, exclusivamente, como uma patologia feminina e efêmera, que só
tinha lugar na adolescência. Alguns estudos contemporâneos da literatura
psicanalítica relacionam a clorose à anorexia.
De
fato, alguns médicos vitorianos acreditavam que um toque de clorose estaria
presente em todas as meninas adolescentes (mas não nos meninos) e que se
tratava de uma doença urbana, sendo raríssima entre as jovens camponesas.48
Segundo
os autores, os sintomas da clorose ou "doença verde" eram
"palidez, fraqueza, cansaço, irritabilidade, constipação e irregularidade
menstrual ou amenorréia" e, por atingir exclusivamente adolescentes do
sexo feminino, contribuiu para vincular a imagem da fragilidade e da magreza à
feminilidade.
As
"cloróticas" eram descritas como meninas lânguidas e em permanente
estado de abandono, desvanecendo-se por qualquer coisa e chorando por motivos
insignificantes.
Psicopatologia
ou a mera expressão de um modismo, um gênero de beleza derivado do Romantismo,
do romance gótico do século XVIII, do mal du siècle, dos poemas de Lord Byron?
Os
médicos lamentavam as conseqüências do byronismo sobre os hábitos alimentares
das meninas, que perseguiam essa 'languidez elegante', essa magreza e palidez
que traduziam fragilidade, desencanto e melancolia, mas adquiridas
principalmente pela ingestão de doses de vinagre. Definhar, sem dúvida, estava
na moda.
Mais
tarde, ainda segundo os autores, a medicina descobriu que tal estado de saúde
era o resultado de a uma deficiência nutritiva, decorrente de tabus
alimentares: não era aconselhável, naquela época, oferecer carne ou alimentos
condimentados para as jovens, pois se acreditava que eles estimulavam a libido.
Esses
verdadeiros tabus alimentares levavam as mulheres a se sentirem desconfortáveis
com relação à comida e a mal tocarem no prato, quando sentadas à mesa de refeições.
Uma mulher delicada não deveria manifestar grande apetite e, se possível,
jamais ser vista comendo.
Para fins de
análise, tomarei de empréstimo esta expressão médica para introduzir o conceito
de "clorose distintiva", aqui definida como um conjunto de práticas e
valores que resultam em uma dada identidade que distingue algumas culturas e
subculturas jovens ou tribos. Essencialmente adolescente e exclusivamente
feminina, ela é expressa, entre outros aspectos, no padrão de beleza feminino
frágil e magro, tão valorizado em nossa sociedade, não somente nas passarelas
da moda.
Lord Byron, poeta inglês do século XIX, é uma espécie de
inspiração para a "clorose distintiva" dos góticos, descendentes do
movimento punk dos anos 70 e sucessores dos darks dos anos 80. Na subcultura
gótica (ou goth),51 a depressão, a melancolia, a morbidade e a personalidade
suicida, embora relativizadas pelos "mediadores" das comunidades
virtuais, são algumas das características que constroem o comportamento de seus
seguidores, tanto entre homens como mulheres. Tipicamente, sua aparência física
é identificada com o uso de vestuário e acessórios pretos que, associados a
cabelos escuros, à pele muito branca, a rostos maquiados em preto e branco,
além de corpos magros e frágeis, tornam as diferenças entre os gêneros muito
sutis. Em páginas da Internet dedicadas à cultura gótica, encontram-se
descrições dos goths como pessoas mais "sensíveis", já que gostam de
poesia e literatura erudita, entre outras preferências...”
Revista
Estudos Feministas
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version ISSN 0104-026XOn-line version ISSN 1806-9584
Rev. Estud.
Fem. vol.15 no.2 Florianópolis May/Aug. 2007
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-026X2007000200005
ARTIGOS
Os wannabees
e suas tribos: adolescência e distinção na Internet
The
wannabees and their tribes: adolescence and distinction in Internet
Cláudia da
Silva Pereira
Universidade
Federal do Rio de Janeiro
RESUMO
Observando
uma rede virtual de relacionamento, o Orkut, é possível identificar um sistema
de classificação determinado pela forma com que os usuários interagem dentro
das comunidades. O wannabe é um dos tipos que fazem parte desse universo. Os
principais objetivos deste artigo são analisar de que forma a adolescência
constrói sua identidade a partir de processos de distinção e controle social na
Internet, tomando os aspectos relacionados ao gênero e ao corpo como centrais
para a discussão, e refletir sobre os significados atribuídos, nessa fase da
vida, a conceitos como "estilo de vida" e "estado de espírito"
dentro de dois tipos de comunidades virtuais: a dos "góticos", tribo
urbana detentora de uma dada feminilidade, e a das "pró-anas",
estritamente virtual, que defende as práticas da anorexia como um estilo de
vida.
Palavras-chave:
adolescência; gênero; corpo; cibercultura.
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